Domingo de Páscoa

Cristo ressuscitado

Padre César Augusto, SJ

1 – Na primeira leitura, extraída do Livro dos Atos, cap. 10, temos o caminho da Igreja. Pedro, enviado por Deus e já se portando como homem novo, isto é, rompendo o esquema excludente que proibia o contato com os pagãos, vai até um deles, o centurião Cornélio, e resume a mensagem cristã:

Pedro diz a Cornélio, sua família e amigos mais íntimos, que Jesus passou a vida fazendo o bem e curando todos o que estavam dominados pelo mal; os judeus o mataram, pregando-o na cruz; mas Deus o ressuscitou.

Essa leitura nos coloca no ponto central de nossa fé: anunciar e testemunhar que Jesus ressuscitou! Quem o aceita, é perdoado de seus pecados e integrado na Igreja, o novo Povo de Deus.

Seus discípulos se tornaram testemunhas de que Deus o constituiu juiz dos vivos e dos mortos, além do que receberam o perdão dos pecados e passaram a fazer parte de seu povo.

2 – O Evangelho proposto para a missa matutina, tirado de João, cap. 20, 1-9, relata a cena da ida de Madalena ao túmulo de Jesus, ainda de madrugada.

Escreve João: “No primeiro dia da semana…quando ainda estava escuro,…”  Temos o relato de uma nova criação. No primeiro dia e escuro. Esse escuro pode nos recordar o caos que havia antes da criação.

Escuridão significa ausência de luz, dificuldade em distinguir as coisas, sinal de morte! Significa o estado, o modo de ser daqueles que não aderiram a Jesus. Mas dentro da Madalena existe algo que nem ela percebe: uma força imperiosa a comanda na ida ao túmulo, em meio a todos esses sinais de morte. Ela é a mulher da adesão total ao Cristo, ao seu Senhor! A busca pela vida está dentro dela e não é a busca pelo corpo de Jesus, mas a busca por ele, sua vida, seu amor.

Quando vê o túmulo vazio, acaba o ambiente silencioso, próprio de uma necrópole e uma grande movimentação invade nosso cenário: ela corre para Pedro, este corre para a sepultura, juntamente com outro discípulo.

Voltemos para o nosso mundo. Quantas vezes vivemos um ambiente de morte e nada fazemos (injustiças, fome, discriminação, preconceitos, falta de recursos médicos e farmacêuticos, tantas carências e sofrimentos!) e somos coniventes com tudo isso. Agora com a pandemia causada pelo coronavírus, muitas pessoas acordaram e se tornaram solidárias, mas e a fome? E os milhares de seres humanos que morrem por causa da fome? E a falta de hospitais? O que dizer dos corredores abarrotados de macas e de pessoas enfermas deitadas no chão aguardando um atendimento?! O caos já existe muitíssimo antes do coronavírus! E nós cristãos, acomodados em nossa zona de conforto. Onde foi parar nossa adesão à vida?!

Louvamos Madre Teresa de Calcutá, Irmã Dulce, chamada “o Anjo bom da Bahia”, Dra. Zilda Arns, e outros casos isolados.

Como Deus reagiu e reage a tudo isso? Em um ambiente machista, é a uma mulher – Madalena – confiado o anúncio da ressurreição, da vitória da Vida, da Redenção, mesmo que inicialmente seja apenas o alarde do túmulo vazio! Quem vai dar a notícia aos discípulo e ao mundo é Maria Madalena!

Depois será o discípulo mais novo, o primeiro a acreditar no anúncio feito por Madalena, e não o mais velho e chefe! Será ele, o jovenzinho, a ter o dom do discernimento e a colaborar com o chefe em sua missão, não por ser jovem, mas por amar muito. Assim é Deus, o Deus Amor, faz reviravolta na estrutura imóvel deste mundo! E nós? Qual é nossa postura, a do homem novo, do que ama, segundo Jesus, ou a do homem velho, que olha primeiro a lógica, os interesses materiais, como acontece no caso do coronavírus, entre outros, de acordo com as normas e leis injustas deste mundo?

3 – No Evangelho escolhido para a missa vespertina, o trecho de Lucas denominado Emaús, temos duas cidades: Jerusalém e Emaús. A primeira, o lugar do testemunho, da morte de Jesus na cruz, de onde os discípulos sairão para dar o testemunho.

Emaús, para onde se dirigem os desanimados, os que não compreenderam o evento pascal.

Os discípulos, Cléofas e um anônimo, que pode ser nós mesmos, caminham sozinhos e desanimados, como quem perdeu o sentido da vida.  Voltam para Emaús, isto é, abandonaram o projeto de Deus, Contudo, o Senhor não os abandonou, mas, Deus Conosco, caminha com eles, ao ver a perplexidade e desânimo que traziam no coração. 

O Senhor, a Luz do Mundo, está ao lado dos discípulos para socorre-los naquele momento tão difícil. Ele vai, aos poucos, clareando as palavras da Escritura e os corações começam a aquecer, de tal modo, que não querem perder a presença do caminhante e o convidam para permanecer com eles. Jesus, que não se impõe, mas espera nossa acolhida livre e sincera, aceita o convite e se torna hóspede daqueles homens desanimados. Ele, Jesus, sabe que tem a tarefa de ser consolador.

Ao sentar-se à mesa e partilhar o pão de seus anfitriões, o Senhor se dá a conhecer ao partir o pão.

Nesse momento se dá o “insight”, “cai a ficha” dos discípulos. É ele, o Senhor!

Do mesmo modo que a revelação foi profundamente transformadora e elucidativa, também a conscientização dos discípulos foi automática! O Senhor ressuscitou! Apesar do cansaço e da hora, eles voltam para Jerusalém. A Boa Nova se impõe e deve ser anunciada a todos! A VIDA venceu! A Fé e a Esperança em um mundo novo, sem sofrimento, dor e morte se tornou realidade! A Bondade se impôs e para sempre. A Caridade, o Amor triunfaram!

Pedro e Maria representam a nós que ainda, apesar de nosso amor, de nossa adesão a Jesus, ainda não fizemos o salto qualitativo para passar da entrega racional à entrega radical, dos que amam sem reserva, como o discípulo amado!

4 – Concluindo, apenas a citação de um versículo da Carta de Paulo aos Colossenses, 3, 1-4, nossa segunda leitura: “…aspirai às coisas celestes e não às terrestres”! Devemos discernir entre o que é ou não conforme o projeto de Deus. É próprio do cristão viver na tensão entre ser de Cristo e ainda não o sê-lo definitivamente. Que nossas boas obras manifestem nossa total e radical adesão à VIDA, ao Cristo Ressuscitado.

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